De nosso amor e loucura...

Alguns de nós, eu inclusive, já vimos acalentando a ideia de criar este blog. Fazemos, de certo, parte de um grupo que não se entende como apenas professor, pessoas que criam contos, crônicas, novelas e têm receios de expor suas produções. Somos loucos... loucos pelo ócio mais trabalhoso que existe: escrever Utilizamos as palavras de Clarice Lispector para definir nossa loucura... "Escrevemos porque somos desesperados e estamos cansados, não suportamos mais a rotina de nos ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, nós nos morreríamos simbolicamente todos os dias."
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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Misantropo

                                                                                                             
“Sei que vivo em um mundo de fantasias;  mas também prefiro que assim seja                                                                                                                              e me irrito com tudo o que perturba minha visão. A vida real não me interessa.                                                                                                                                       Gosto de observá-la, mas, no fundo apenas para dar rédeas soltas                                                                                                                                              a minha fantasia. Expresso profunda confiança na fantasia...” 
FEDERICO FELLINI.
                                                                                                               

Conheço-o há quase sessenta anos, vida inteira a observá-lo, tolerá-lo, irritá-lo e aplaudi-lo. Ele já foi diferente, já foi tolerante com quem não lhe professasse a fé, ou a ausência dela; quem com ele conseguia partilhar os descaminhos e os subterrâneos que sempre habitou divertiu-se e o execrou. O outro se sentia partilhando, mas ele estava sempre sozinho. Sozinho. Eu percebia que havia quem desejasse com ele se aventurar, mas sua rejeição era sempre iminente e silenciosa, não era necessário, nem possível dizê-la. E lá ia ele, feliz e sozinho, a curtir um, a desdenhar de outro e a se divertir, muito, naquele mundo povoado apenas por ele. Já o vi a chorar saudade. Crês? Mais gente viu! Já o vi a escrever cartas de amor, a fazer plantão às 6h da manhã só para ver passar um certo olhar sanpako que teimava em desdenhá-lo.
Como envelhecemos todos e, neste caso, confortavelmente juntos, fica simples, fica fácil entendê-lo. Quando se é jovem, o outro é importante demais, parece que a felicidade desejada vem de lá, do outro, nunca de dentro de nós. Quando já não se tem juventude, nada está no outro, até pode vir algo de lá, mas não é possível contar com isso. Lágrimas e cartas de amor, saudade, mesmo que pouca, passam a coisas do passado.
Falando em saudade pouca, lembro quando tínhamos menos de cinco anos e saíamos para curtas temporadas de férias num engenho de açúcar. Eu penando saudade de tudo; de minha cama, meu leite quente, da luz na janela ao acordar, os passos de minha mãe no corredor... Ele? Instado por mim, até comentava uma pena aqui, outra acolá, mas logo emendava: vamos subir no pé de azeitona! atirar pedras aos porcos no chiqueiro, espiar quem toma banho pelado no rio...
Havia alguns traços que nele se sobressaíam e me enchiam de admiração: ele topava todas as paradas. Até catar as brasas que caíam da maria-fumaça que transportava a cana colhida e a levava para a usina. Queimávamo-nos com aquela brasa, mas era lindo ver como ela brilhava vermelha quando a tínhamos na mão e a assoprávamos; ele era capaz de contar tudo o que via e vivia, tudo com detalhes miúdos a nosso tio quando ele nos perguntava: - que andaram fazendo hoje? Se lhe deixassem, era capaz de contar até que ao cavalo do capataz faltava uma ferradura.
Chegou o tempo em que já não podíamos contar tudo aos outros. Só podíamos ver, viver e guardar, sabe-se lá para quando possível fazer o quê! Acompanhei-o em suas incursões ao subterrâneo, mudava-me com ele para lá constantemente; enquanto isso, tornava-se cada vez mais difícil gostar do que não estava lá, a menos que fossem histórias, que fossem fantasias, que fossem ao menos fotos, ou até diálogos espreitados do alheio, mesmo que fossem coisas incompreensíveis; mais uma vez, quem sabe, para guardar na parede da memória e poder um dia ir lá buscar e usar de alguma forma...
Hoje, ele parece sentir-se bem eliminando aqueles que um dia lhe estiveram por perto. “Arre”, costuma dizer, “por que pai e mãe vivem tanto?! E irmão e irmã, têm mesmo que ficar a ciscar por perto a querer saber de tudo, a querer ajudar, a visitar? E os amigos parecem pensar que a disponibilidade que não cobro é a que devo dedicar”. Antes de ver o belo e o agradável, elege o feio. Parece só ter olhos para aquilo que destoa, que não combina, que não casa; mesmo assim, ainda lhe admiro um senso de humor ferino, cáustico e uma rejeição assumida à miséria vocabular alheia que me chama as risadas; uma franqueza rascante que só após uns meses o alvo terá conseguido assimilar. E perdoar. Fácil reconhecer-lhe momentos de brilhantismo, mormente quando escreve, mas nunca fui capaz de lhe perdoar o menosprezo.
Nenhum amigo histórico, daqueles capazes de fazer perguntas antigas... aliás, perguntas antigas são o seu nome; sua memória, por vezes constrangedora, aética e despudorada atrai revides  nunca compreendidos.
Quando os sessenta anos sobrevêm, é impossível manter-se longe de manias, arrufos e antipatias. Magoar sim; desculpar-se, difícil. Chegar aos sessenta sem um amor histórico, sem testemunhos vivos e verdadeiros é como esconder-se para sempre sob a carapaça que se vai vestindo aos poucos e que, de repente, já não pode ser retirada...                  


Oswaldo Lucas-Jr
30 nov 2012


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Viagem inusitada


      Não procuro nada além de simples relações, um pouco de prazer e carinho; alguém para ouvir e  que seja bom ouvinte.                                                                                                                    Alguém para beijar, sorrir...

ELEVADOR DÁ PÂNICO EM UNS, EXCITA OUTROS. E produz histórias. Muitas. Quem não conhece ao menos uma? Desde as engraçadas, como as exibidas na TV, em comercial ou não, como aquela em que dois homens, gaiatos, conversam num elevador lotado sobre fictícia doença infectocontagiosa de um deles, sob esgares e olhares medrosos dos outros passageiros e, claro, escárnio dos dois; até notícias trágicas que contam sobre elevador que despencou indo até o poço e matando todos os ocupantes, ou sobre aquele homem que abriu a porta e, inadvertidamente, embarcou num elevador que não estava ali e... morreu. Foram, aliás, acontecimentos como este último que geraram aquele abominável adesivo obrigatório que diz: ... “verifique se o mesmo...”.
Tenho cá minhas relações com elevador, às vezes ressabiadas, quando se trata daqueles em prédios velhos do centro da cidade. Aqueles com portas pantográficas. E às vezes bem amistosas, como com aqueles em prédios modernos, decorados com espelhos enormes que nos facilitam ajeitar o cabelo, limpar os olhos, puxar um fiapo do dente...
Moro num 11º andar, então elevador faz parte de minha rotina. Semanas atrás, chegando a casa mais cedo, 8h da noite, encontrei minha vizinha porta-com-porta na garagem, e juntos embarcamos.
Mulher de uns 40 anos, simpática, charmosa, um mulherão. Cheia de saltos, bolsas, pulseiras e colares, claro que tudo em perfeita harmonia. E mais! Conversa em português escorreito, fala de si, interessa-se pelo interlocutor, olha nos olhos... Meu irmão diz que ela dá de dez nas duas filhas; por sinal, duas gatas.
Íamos a conversar sobre os trâmites de seu divórcio. Sim, divorciada, de um cabra velho, chato e, dizem, louco por quenga. Então um tranco e o elevador parou no 7º andar. Não subia, não descia, não abria a porta. O interfone não funcionava. Só faltava a luz apagar...
Não sou homem de entrar em pânico. Nem minha charmosa vizinha o era. Olhamo-nos e foi como se nos disséssemos easy going! Toc, toc, toc, alguém do lado de fora perguntava se havia alguém preso. Era um morador do 7º, deu-nos umas dicas que fariam a porta abrir. Debalde. - Calma aí, disse-nos, o porteiro vai vir com a chave. Veio o porteiro com a chave, choc, choc, choc e... nada! Teríamos que aguardar a vinda de um técnico. Sugeri então a minha bela vizinha: vamos sentar e aguardar. Dei um jeito de abrir uma fresta na porta para que entrasse algum ar. Ela ligou para as filhas. No máximo em meia-hora seríamos libertados. Mas não foi bem assim...
A cena era impactante. Nós dois sentados no chão do elevador. Não éramos como dois sacos de batatas. Estávamos os dois bem vestidos; mochila, bolsa, chaves, saltos altos, botas, capacete a decorar o chão do ambiente.
E nos pusemos a conversar. Conversar por delicadeza quando não se quer falar e não se tem sobre o que falar é uma maldição, pois não? Felizmente não foi esse o caso. Eu estimulava e ela se punha a contar... contou-me do cachorro do ex-marido, das filhas, falou da loja de moda feminina que mantém no bairro, das dificuldades financeiras... eu falei daquilo que me era mais presente: Brasília, cidade onde ela, aliás, morou por anos. Foi agradável ter com quem trocar as felizes impressões que a cidade me deixara. Contou-me mais... contou-me do gostosão do prédio, verdadeiro deus, casado, que lhe deixara cantada por escrito sob sua porta. Devidamente esnobado.
Já conversávamos havia uma hora quando o subsíndico, o cabra mais simpático do prédio, libertou-nos. E nem acreditou ao ver saírem lá de dentro aqueles dois tão sorridentes, como saídos de um coquetel.

Oswaldo Lucas-Jr                                                                                                                                                                                  olucasjunior@gmail.com                                                                                                                                                                               13 de setembro de 2012

quinta-feira, 22 de março de 2012

Uma Tarde Punk



“Eu me sinto um estrangeiro, passageiro de um trem que não passa por aqui”.
ENGENHEIROS DO HAWAII

JÁ SE TORNOU PROVERBIAL, entre seus amigos, sua aversão a quem não conhece. Se de classe social inferior e, principalmente, não havendo da parte dele nenhum interesse sexual, então bye, bye, so long, farewell. Mas acontece de ele se deixar levar. Assim é Pedro.
No feriadão da semana santa, topou ir com seu amigo Augusto a Peixinhos, ali perto, visitar Joab. Ele estava mesmo querendo conhecer esse cabra de quem Augusto tanto vinha falando.
Peixinhos é aquele subúrbio feioso onde tudo é mal-acabado e poeirento ou lamacento, ao sabor da estação. E onde um dia já houve um famoso matadouro. Basta uma olhada geral por lá para perceber que se trata de um, como diz minha mãe... buraco! A casa de Joab ficava bem próxima à avenida principal, a Presidente Kennedy. A rua era um amontoado de casas feias, mal cuidadas e pintadas com cores berrantes, algumas com primeiro andar. Não entendo, mas pobre parece adorar um primeiro andar. Não havia quase calçadas, a rua era descalça, esburacada e no ar um cheiro fétido de esgoto correndo a céu aberto, lama; gente feia aos montes andando na rua e aparelhos de som postos na calçada bradando Banda Lapada, Top 10 e quetais compunham a cena. Assustador o quadro? O pior ainda estava por vir...
Joab é um misto de músico e cozinheiro, que presta serviços eventuais a Augusto, fornecedor de refeições a pequenas empresas. Homem de pouco mais de 40 anos, Joab é um tipo gordo, gay efeminado e um tanto descuidado consigo, ou talvez fosse isso ocasional, já que era feriado, e ele estava, afinal, em casa, à vontade.
Sua casa, segundo informações dele próprio, fora construída num terreno herdado de seus pais; no mesmo terreno, havia mais duas casas contíguas, a principal era a dele, onde morava sozinho, a seguinte era a de um irmão, também gay e, na última, morava uma irmã com marido e filhos.
Pedro e Joab deram-se bem, Joab era homem simpático, delicado, que falava baixinho e que já sabia de Pedro e de suas antipatias gratuitas. Sua casa, pequeniníssima e tipicamente arrumada no estilo das casas de subúrbio, com sofás de forro colorido, um daqueles bares horrorosos com copos dependurados, um televisor imenso e telhado de brasilit com teto não estucado, o que deixava a casa quente, àquela hora bem próxima do inferno. E estava, por sinal, imunda; Pedro torcia o nariz por ver sujeira por toda parte, a pia da cozinha com pilhas de pratos e panelas e copos e talheres, restos de comida; lixeira cheia até a borda. Mas claro que tudo isso passava fácil, fácil diante de toda aquela simpatia do anfitrião.
Lá, tomaram algumas cervejas, conversaram amenidades, e o que se sobressaiu daquele papo, à percepção de Pedro, sujeito crítico contumaz, foi a maneira como os dois, Augusto e Joab, se tratavam. Muito diferente do que acontecia entre ele e o próprio Augusto. Aqueles dois nem falavam o nome um do outro, era “frango” para cá, “viado” para lá e até “arrombado”. Esquisito e desagradável? Sim, mas Pedro estava se esforçando para se divertir e creditava tudo aquilo ao exotismo das relações gay naquele meio.
Pedro parece carregar consigo uma curiosidade enorme acerca das coisas e das pessoas... sempre a querer saber tudo; que idade a pessoa tem, sua origem, se ela tem um amor, se a casa onde mora é própria... e isso, que sempre vem naturalmente, às vezes parece não ter fim, a menos que o interlocutor demonstre aborrecimento e veja nisso uma invasão; aí, ele sempre tem fairplay para entender e parar. Outro dos riscos que corre é o de monopolizar a conversa, já que é espirituoso, divertido e centralizador. Mas, ou o anfitrião estava determinado a conquistá-lo ou o nível de álcool no juízo dele já ia alto, o fato é que teve paciência e lhe respondeu a tudo.
Bem, como os dois, Augusto e Joab, estavam satisfeitos com aquela aparente aceitação de Pedro acerca de tudo até ali, propuseram esticar aquele encontro: “Que tal irmos à casa de Francine”? Propôs Joab. Francine? Pois é, reside aí a parte punk da história...
Ela, a Francine, morava três ou quatro casas além e, quer saber? Não teria sido uma perda passar aquela tarde sem a conhecer... Ela morava numa casa bem maior e melhor equipada do que a de Joab. Esperava-os com uma mesa na calçada. Com ela, algumas pessoas de sua família que também lá moravam. O marido, um inexpressivo, que ela tratava aos gritos; um filho, a mulher deste e umas cinco crianças, que exibiam orgulhosas os ovos de Páscoa que haviam ganhado. Um aparelho de som estridente reproduzia algo no estilão que parecia imperar por ali.
Francine era mulher muito fraca de beleza, um tipo bonitinha de longe. Baixinha, cerca de 55 anos, branca, magra e mal desenhada. Cabelos pretos “na cor da asa da graúna”, desdentada e desbocada. Falava alto demais num dialeto e num ritmo difíceis de acompanhar, dava ordens a todos aos gritos e era acatada de pronto. Insistia para que bebessem e comessem do que ela servia. Pedro até beliscou de algo que parecia ser uma caldeirada. Não gostou, mas foi delicado e elogiou, como sua mãe ensinara a fazer e como caberia num ambiente tão... punk. Seu amigo Augusto olhava-o e parecia rir-se dele, pois bem sabia dos incômodos que estava a passar. Ele precisou ir ao toalete e, assim, pôde observar o interior da casa. Sala despojada, cozinha limpa, banheiro sujo; e lá, algumas falhas para as quais não há perdão: vaso sanitário sem tampa, ausência de papel higiênico e a presença de um daqueles odiosos baldes plásticos para se pôr o papel usado.
Como antes Pedro estivera dentro da casa de Joab e ali ele estava na calçada, pôs-se a observar o entorno. Só havia homens na rua. Uma esquina estava permanentemente movimentada. Carros que paravam e seguiam. Um homem que estava nessa esquina chamou-lhe a atenção, era um cadeirante muito jovem e bonito, sua pele era de um branco encardido e suas pernas eram fininhas. Levava, preso à cadeira, um coletor de urina. Pedro se Interessou por saber o que lhe havia tirado os movimentos das pernas.
Um preto efeminado com os dedos das mãos cheios de anéis, empregado de Francine, que chegara à mesa e a quem todos tratavam como frango, disse-lhe que o rapaz levara um tiro em perseguição da polícia. Era traficante. Ficou claro então todo aquele movimento na esquina de carros que paravam e seguiam... ali rolava tráfico de drogas. Pedro se assustou ao perceber também a promiscuidade social que imperava ali, pois mais tarde o cadeirante e outros que com ele estavam atravessaram a rua e vieram beber numa mesa que Francine providenciara, junto à dele. Estar naquele ambiente com traficantes de drogas bem do lado não era exatamente um conforto, não estivesse já embriagado de tanto “litrão” de cerveja, teria sido aquele o momento de ele ir embora.
Aventureiro na juventude, Pedro curtira drogas e se relacionara facilmente com todos; vira-se nesse tempo, aqui-acolá, em ambientes e situações como aquela, que lhe alimentavam a curiosidade e lhe abasteciam a vida de aventuras. Às vezes, até preferia estar em meios tais a estar em casa, onde era observado por olhos policiais. Hoje, já maduro e as drogas não mais representando um atrativo, ver-se naqueles ambientes só podia mesmo servir para impor certo controle sobre essa sua parca tolerância, além de povoar seu entorno, hoje tão carente de gente.
O pior é que, com seu esforço de simpatia, de verdade Pedro agradou, e a Francine já andou comentando com seu amigo Augusto que quer ir à casa dele...

Oswaldo Lucas-Jr.
maio, 2012

domingo, 11 de março de 2012

Carta a Tia Carmita


A Tia Carmita
“Ah, escrever! Deleitar-se com as próprias palavras, ou, pelo contrário, sofrer com elas à procura de expressão própria, singular, de preferência reconhecível pelo outro,pelos outros, pelo mundo..."      

FERNANDO PORTELA


AINDA HOJE, DURANTE O ALMOÇO, papai e mamãe falaram mais uma vez de ti. Os comentários de sempre, tia. Teus históricos desentendimentos com Corina e de como envelheces amarga, fofoqueira e rabugenta. Escuto esses comentários, tia, e sempre te defendo, comentando sobre o destino cruel que a vida te reservou, fazendo-te viver os anos da velhice eterna com a única irmã com quem nunca te deste bem. Depois desses instantes à mesa, fiquei uns minutos a pensar em ti, em como me alegraste a infância e na grande dívida que hoje tenho para contigo...
Todos na família sabem de minha boa memória e até a reverenciam; cá para nós, tia, tenho segredos e histórias demais, sabes? Mas só agora, aos poucos, venho dando o devido valor a isso e tentando pôr tudo em texto. Nessas lembranças, tu estás bem presente e me sinto, sinceramente, em débito contigo, meio culpado por não te dar, hoje, a assistência de que precisas... ir a tua casa para conversarmos um pouco sobre os anos de minha infância, que foram também os anos de tua juventude, teus anos como professora... conversar contigo sobre vovô, um homem pouco amoroso, mas de tantas palavras... lembrar contigo das viagens que eu e ele fazíamos, de trem, a Água Branca e a Palmares para visitar os irmãos dele... acho que isso faria bem também a mim, sabes? Mas acho que, para tua tristeza, vou continuar a te dever isso, tia.
Pois é, lembro bem de tudo isso; tio Bernardo, Água Branca, tia Nana, Palmares, lembro a guerra que era para vovô convencer papai a autorizar essas minhas viagens com ele. E até a estranheza de todos por eu, já àquele tempo, aos 4 anos, topar essas empreitadas sem choro nem saudade.
Foste nossa professora de catecismo, há teus dedos em tudo o que se relaciona a nossa primeira comunhão, minha e de Flavinha. Naquele tempo, papai e mamãe não eram os carolas que são hoje, de maneira que intercedeste em tudo, na cerimônia, nas roupinhas brancas, nos livrinhos, nos terços, santinhos, nas velas e no café-da-manhã que foi oferecido à família nos jardins de nossa casa na Imbiribeira. Hoje, mamãe lamenta não haver sabido incutir religiosidade em nenhum dos três filhos. Três hereges, como ela mesma diz.
Acho que tua presença em minha vida começou a se fazer forte quando nos mudamos da Imbiribeira para a Boa Vista, quando ascendemos socialmente. Papai e mamãe nunca tiveram espírito de carnaval, nem de são João, mas tu nos levavas, a mim e a Flavinha, às matinês de carnaval do Clube Português, eu fantasiado de Bat Masterson (no velho oeste ele nasceu...) com fraque, cartola, bengala, um saquinho de confete e serpentina e um tubo de lança-perfume. E aos arraiais do Sítio da Trindade. E à Festa da Mocidade. E era sempre difícil a autorização de papai para que fôssemos contigo, o que só reforçava tua participação nessas empreitadas. Rominho, que era muito pequeno, jamais quis fazer parte da companhia, era agarrado demais às saias de mamãe. Ele nunca soube o que perdia, pois eras generosa e nos cobrias de mimos... refrigerantes, salgados e quetais. Segundo papai, tu nos “estragavas”. Verdade que os programas não eram todos de diversão, havia as procissões. Eu e Flavinha te acompanhávamos com velas acesas a cantar “ave, ave, ave Maria...”
Houve muitas tardes em que mamãe não tinha com quem nos deixar e o motorista de papai nos deixava, os três, contigo, na casa de vovô. Eram ainda anos 60 e vovô era vivo. Chiquinho estava sempre ausente e Corina, que nunca escondeu não gostar de criança, sofria, coitada, com aqueles pirralhos intocáveis a mexer em suas tampas de pasta dental e em seus arames. Tu nos contavas historinhas, que sempre agradavam mais a mim do que a Flavinha. Acho que já àquele tempo minha mente aplaudia essas “viagens” e a de Flavinha, mais ligada no concreto, reclamava.
Mas não são só prazerosas as lembranças, tia... lembro de duas passagens que ficaram gravadas na parede da minha memória: uma, de grande repercussão em mim, e outra, de repercussão coletiva.
A de grande repercussão em mim foi o desentendimento ocorrido entre papai, sempre irascível e defensor zeloso de suas crias e tio Joaquim (que o bom Deus o tenha). Nunca me foi revelado o que realmente acontecera, mas eu era um garoto esperto e, sendo o assunto eu mesmo, seria difícil eu passar ao largo dele, né não? O que me sobrou aos ouvidos foi que tio Joaquim havia comentado com tio Geraldo (que o bom Deus também o tenha) que eu era o rejeitado de nossa família e que tudo o que havia de melhor ficava para Flavinha e Rominho. Isso nos afastou da casa de vovô, já que o chatoso do tio Joaquim, como deves lembrar, de volta de Niterói e desempregado, estava acampado lá. E seus móveis, guardados em nossa garagem. O acontecimento entristeceu muito vovô. E foi tua interferência, somada à de vovô, que trouxe a paz de volta à família. Mas as reverberações disso em meu juízo de criança perduraram...
A outra passagem, nada feliz para ti, foi a grande cheia de 1964, que pegou a todos de surpresa e acabou com tudo o que havia na Idalina Pontes 45. Na mente de uma criança não há muito espaço para tristeza, assim, a cidade sucumbia à água e à lama e eu me divertia com tudo... com a casa cheia de gente; com a rua Tabira, onde morávamos, que era ladeira, com água até a metade. Lembras que morávamos na metade alta; com a movimentação na rua, no quartel... Ficaste um tempo lá conosco, tu e Chiquinho. A festa maior, além de tua presença, era folhear teus livros e os de vovô, molhados e enlameados secando ao sol, à procura de dinheiro. Tinhas então o hábito de poupar dinheiro guardando as notas entre as páginas dos livros. Já havias dito: “o dinheiro será de quem achar”. E achávamos mesmo... Ainda hoje sinto aquele cheiro de caranguejo uçá que vinha daquele rescaldo da cheia em nosso quintal.
Não encontro em mim, tia, paciência e tolerância para lidar com a família, sabes? Triste isso? Talvez seja apenas resultado de algo em que nunca mexi muito, apenas ensaiei, nos processos terapêuticos em que me vi envolvido. Amo meus pais, mas não tenho o menor interesse em chegar mais perto deles psicologicamente; mas nunca, na verdade, tivemos tal proximidade. Seria um esforço imenso, para mim, fazê-lo acontecer agora. Como nunca trabalhei com afinco essas minhas relações parentais, ainda hoje sinto bem vivas as repulsas que minhas propriedades lhes causavam e é possível que acabe, de repente, revidando essas repulsas do passado.
Minha irmã, que haverá de ser um capítulo à parte dessas memórias, foi personagem apagada de minha infância, distante a partir de minha juventude e hoje não seria exagero dizermo-nos antípodas. Rominho, a histórica incógnita, ficou marcado para sempre como o dedo-duro que detonou a maior crise de minha vida; hoje, ele é aquele exemplo de irmão oficial com quem jamais saberei até onde poderei contar... bom, mas também eu não sou um exemplo de disponibilidade...
Pois é, tia, não sou bem um homem amoroso com a família e, a essa altura, já nem quero entender como, nem por quê.
Acostumei-me a não ser o que de mim se esperava; a ser aquele de quem pouco se sabia. Um ausente de todos. Um esquisito. E também a ser o contrário disso tudo no mundo lá fora. Eu achava, sinceramente, que não tinha que “fazer parte da companhia”, o que legitimava, para mim, essa ausência de tudo e de todos...
 Mais de uma vez ouvi comentários em casa, sempre de mamãe, surpresa, ao ouvir opiniões a meu respeito, opiniões que me revelavam a ela um homem divertido, comunicativo e de conversa fácil. Aí, ela dizia: “acho que tenho um filho que ainda não conheço...”.
Saibas, tia, que esse mea culpa, é o meu esforço para te fazer crer em meu amor.
Um cheiro, tia.
Oswaldo Lucas - Jr                                                                                                                                                 olucasjunior@gmail.com                                                                                                                                   
Abril de 2010